03/07/2014 - Gringos se rendem ao rodízio de carnes e lotam as churrascarias de Salvador

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Antes dos jogos que acontecem na Arena Fonte Nova, a presença de turistas triplica o movimento destes restaurantes. Loucos por picanha, não deu para o acarajé

Na porta da churrascaria Fogo de Chão, a hostess se vira como pode. “Six?”, pergunta a dois gringos que adentram o recinto. “Si. Sês”, responde um dos rapazes, em quase português, com seis dedos das mãos estendidos para a moça. A funcionária, então, direciona os rapazes para uma mesa com os seis lugares solicitados. É ali que eles conhecem uma felicidade chamada picanha. A carne é a preferida dos gringos que vêm a Salvador. No restaurante, uma tonelada do corte chega a ser vendida em meio ao entra e sai de um estrangeiro e outro.

Se alguém pensou que os gringos cairiam matando no acarajé foi porque não passou pela fachada da churrascaria que fica no Rio Vermelho, em dia de jogo na Fonte Nova, a partir das 10h da manhã. “Chegam a atender até 1.800 pessoas e o tempo de permanência na fila é de, em média, 2h30”, conta o gerente da Fogo de Chão, Jair Marostica. A maioria destes clientes é de turistas da Holanda, Portugal, Espanha, Alemanha, Chile e México. “Deveria ter Copa do Mundo todo ano no Brasil”, comemora o movimento mais que triplicado na casa, que costumava a receber 500 pessoas por dia.

Numa das mesas, os belgas John, Michou, Alex, Bernard e Stéphano, se viciaram na iguaria. “Fomos nessa churrascaria em Belo Horizonte, gostamos e viemos na daqui também”, explicou o piloto de avião Stéphano T’Joen, num português que aprendeu com Caetano Veloso. “Eu gostava muito de Caetano e queria entender o que ele dizia. Então, comecei a fazer um curso”. Na churrascaria, era o intérprete dos amigos. Pediu as bebidas, acompanhou no bufê e pediu o corte ao garçom. “Só picanha”, determinou. No Brasil pela primeira vez, o grupo veio para assistir Bélgica e Estados Unidos (ontem) e Holanda e Costa Rica (sábado).

Grata surpresa

O aumento do fluxo era esperado, mas a dimensão superou as expectativas, conforme relata o gerente da churrascaria Boi Preto, João Carlos Machado. O incremento tem sido em torno de 30%: “Isso ajudou bastante porque o mês de junho é muito ruim”. O gerente da churrascaria Fogo de Chão, Jair Marostica, também concorda. “O movimento em junho fica muito fraco, pois nossos clientes costumam viajar”.

Se por um lado as churrascarias se surpreenderam com o movimento, os estrangeiros confessam que se renderam mesmo ao sabor da carne. Perguntada sobre o assunto, a família israelense, que jantava em um dos restaurantes, respondeu quase em coro a única palavra que aprenderam do português. “O gosto é muito bom. Lá em Israel não tem”, disse a mãe, Chen, que é pediatra. O pai, o economista Itzik, contou que a família veio a Salvador apenas para ver o jogo da Bélgica.

A surpresa também veio para o bolso do estrangeiro, que costuma pagar em restaurantes brasileiros fora do país, o mesmo dinheiro que dá para fazer o churrasco, convidar a família, juntar os amigos e movimentar a varanda de casa com direito a um troquinho. A baiana Nau Ferreira Mescoff mora em Paris e conta que um rodízio lá chega a custar 250 euros por pessoa. Em reais, isso passa de um salário mínimo, R$ 753. “Lá são servidos apenas seis tipos de carne, acompanhados com uma garrafa de vinho”, lembra.

Mais carne

No restaurante A Porteira, que está estrategicamente localizado para aplacar a fome de carne dos estrangeiros que vão assistir aos jogos da Copa, o movimento também tem marcado gol de placa antes de a bola rolar na Arena Fonte Nova.

“Comparado aos dias normais, estamos recebendo 70% a mais de clientes”, confirma o gerente da casa, Francisco Vitor. Ali, a preferência é pela carne de sol. São cerca de 200 pedidos do prato. “A carne de sol é sinistra”, como qualifica o boliviano Rodrigo Ramos. Em todos os jogos em Salvador, ele marca presença no restaurante antes da partida. “Faço o aquecimento aqui. É o point”.

A americana Brenda Bello chegou, ontem, antes do jogo dos Estados Unidos contra a Bélgica e só deu tempo mesmo de experimentar o acarajé. Mas, ao ver o garçom passar pela mesa com a carne de sol, não se conteve: “a carne tem uma cara muito boa, após o jogo vou voltar para experimentar ela também. Fiquei com vontade”, prometeu.

Mundial só beneficiou restaurantes perto da Arena

Para o diretor executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Luiz Henrique do Amaral, o aumento na venda de alimentos e bebidas é pontual. “Está acontecendo um fenômeno de concentração nos dias de jogos.

Em outros dias, o fluxo é menor. Não há um equilíbrio”, explica. Segundo ele, esta mudança de hábito no consumo por conta da Copa acaba lotando alguns estabelecimentos e diminuindo a média de vendas em outros. “Os eventos se concentram muito em dias de jogos. Fora isso, você não tem o mesmo fluxo, na verdade tem uma baixa no faturamento”.

Alguns locais potencializaram seus ganhos, enquanto outros ainda esperam recolher os bons frutos da Copa. Segundo o presidente da Abrasel, os estabelecimentos que ficam na Barra, Centro Histórico, Rio Vermelho, orla e Imbuí foram beneficiados. Enquanto os que estão localizados na Pituba, Itapuã, Graça, Ondina e nos shoppings estão em desvantagem. “É só um dia que aquilo está muito bom e no outro não está. Este impacto na mudança de comportamento é o que mais nos preocupa”, confessa.

O diretor executivo da Abrasel ainda acredita que a Copa do Mundo pode render bons negócios para o setor na Bahia. “A nossa expectativa é que atinja ainda este equilíbrio”, finaliza.

Fonte: IBahia