14/01/14 - A conta continua salgada

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Situação do setor permaneceu complicada no segundo semestre de 2013 e as dificuldades do mercado insistiram em tirar o sono do empresário brasileiro

Há cerca de um ano, quando abriu as portas do Gardeno, restaurante especializado em gastronomia mediterrânea, em Curitiba (PR), a médica e MBA em Administração de Empresas, Maredith Sell, não imaginava que, além das dificuldades inerentes a qualquer negócio em fase inicial, também teria que enfrentar uma das piores crises do segmento nos últimos anos.

Para o primeiro caso, ela se considerava preparada, haja vista a minuciosa pesquisa de mercado realizada para avaliar a viabilidade do negócio. Já para o segundo caso, era difícil estar pronta. “Houve uma queda de público expressiva ainda no primeiro semestre de 1013, especialmente a partir de abril. Assim como muitos empresários, esperava que a situação melhorasse ainda em setembro, mas não foi o que aconteceu. Inclusive, até os fornecedores relataram que as vendas em setembro foram uma das piores do ano”, lembra.

A baixa do movimento percebida pela empresária pode ser explicada pela inflação, que continua assustando o consumidor. Segundo informações da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) subiu 0,38% na primeira quadrissemana de outubro, após encerrar setembro com elevação de 0,30%. Mais uma vez, o grupo Alimentação, que atingiu avanço de 0,41% perante a alta de 0,14% da apuração anterior, foi o que mais contribuiu para o resultado.

Contornar a situação, que Maredith Sell também credita a outros fatores, como a crise econômica e a Lei Seca, tem exigido da proprietária jogo de cintura. Medidas como redução de insumos, mudanças no cardápio, pesquisa cautelosa de fornecedores e eliminação de horas extras são acompanhadas de perto. A queda no movimento, por exemplo, fez com que ela enxugasse o quadro de empregados. “Era isso ou não conseguiria levar o restaurante adiante. Não tenho como manter muita gente trabalhando com o movimento do jeito que está. Vou esperar as coisas melhorarem para reabsorver essa mão de obra”, explica.

Para Paulo Solmucci Junior, presidente executivo da Abrasel, a situação dos bares e restaurantes tem sinalizado uma discreta melhora. De agosto para cá, há o que ele considera uma “mudança de humor” por parte do consumidor, que está um pouco mais presente no mercado. “Mas não está fácil prever como o ano fecha. Sabemos que para a grande maioria será um ano de crescimento muito baixo, algo na ordem de 1% e com a rentabilidade caindo de 20 a 30%, por causa desse ambiente de forte pressão de custos”, avalia.

Solmucci destaca como ponto negativo dos últimos três meses o aumento dos preços das bebidas. Por causa dos altos impostos, no segundo semestre, a líder Ambev aumentou em 20% o preço da cerveja – o produto já vinha apresentando crescimento acima do dobro da inflação no ano. Outro agravante, ainda no caso da cerveja, é que metade do seu custo de produção é atrelado ao dólar, que valorizou acima do esperado, levando às alturas também o preço das bebidas importadas.

A inflação do segmento é outro foco de atenção, já que é quase o dobro da inflação do país, o que por si só já afugenta o consumidor. “É uma situação complicada porque, além de enfrentarmos uma inflação duas vezes maior, perdemos movimento. Ou seja, ao tentar repassar esses custos, não temos mercado capaz de absorver. Isso justifica a queda da margem de lucro.”

Salários pressionados e impostos indiretos, decorrentes da substituição tributária, continuam engrossando o caldo das despesas, contribuindo para a expressiva queda de rentabilidade. Para Solmucci, um dos reflexos mais preocupantes é o achatamento dos investimentos, justo no momento em que as empresas precisam se preparar para a Copa do Mundo no país, no próximo ano. “Isso vai ficando cada vez mais longe no horizonte, porque a capacidade de investir foi praticamente aniquilada pela crise”, afirma.

Reflexo da baixa rentabilidade, a dificuldade de pagamento de empréstimos pode levar muitas empresas à inadimplência ou até mesmo à solvência. “Continuo receoso. Mesmo que o mercado melhore, gastaremos cerca dois ou três anos para voltamos à normalidade.”

Salvas raras exceções, na contramão da crise, alguns donos de estabelecimentos afirmam bons resultados. É o caso Flávio Tocchetto, dono do Sapore D’Itália, em Campina Grande (PB). Segundo o comerciante, nos últimos dois anos o restaurante manteve o crescimento. “Mas, sei que, infelizmente, essa não é uma realidade para a maioria dos meus companheiros”, lamenta. Questionado sobre as estratégias utilizadas para o colocarem nessa situação favorável, ele menciona que, além de possuir sede própria, o que o livra das despesas com aluguel, vem trabalhando fortemente para eliminar desperdícios de matéria-prima.

No outro extremo do país, Maredith Sell vai levando em frente a dura prova de iniciante pela qual tem passado e encara a situação desfavorável como uma “seleção natural”. “Muitos empresários não vão aguentar. Muitos já fecharam e acredito que muitos outros estão nesse caminho. Estamos dependendo muito dos rumos da economia. Mesmo assim, tenho esperança. Creio que quem conseguir passar dessa fase, vai colher bons frutos lá na frente”, aposta.

Rentabilidade baixa em SP

“O mercado está estável”. É assim que Joaquim Saraiva de Almeida, presidente da Abrasel-SP, avaliou o segundo semestre de 2013. O estado abriga cerca de 140 mil empresas do setor de alimentação fora do lar e sua capital está entre as cinco das sete pesquisadas pela FGV que apresentaram alta do IPC-S: de 0,37% para 0,5% na prévia de outubro.

Segundo Almeida, mesmo com o faturamento estável, a rentabilidade do segmento continua caindo no estado. Ele explica que essa situação pode se agravar com as despesas típicas de final de ano, como o 13° salário dos empregados e o aluguel extra, no caso de estabelecimentos localizados nos shoppings. “O faturamento, no mês de dezembro, vai do dia 1 ao dia 20. Isso porque, do dia 20 ao dia 31 a maioria das empresas entra em férias coletivas e muitas delas só retornam as atividades depois do dia 3. Isso também afeta o faturamento e os resultados.”

 

Fonte : Revista Bares & Restaurantes nº94 *Leia a matéria na íntegra na revista