22/11/2013 - No tom certo

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No tom certo

O Na Mata Café BH foi totalmente reformulado e colocado sob medida para receber seus três tipos de ambientes

Por Ana Paula de Oliveira

Boa comida, atendimento de primeira, amigos à mesa. Não poderia ser melhor, não fosse um elemento importante que nem sempre é levado a sério: o barulho em excesso. Mesmo sendo típico de ambientes como bares e restaurantes, onde há grande circulação de pessoas, o ruído (essa mistura de sons indesejados e que causam desconforto), pode jogar por terra as qualidades de um empreendimento. Por isso, o tratamento acústico deve estar no rol das prioridades de quem não quer que o som dos talheres e da cozinha, somado às vozes das pessoas, a música e até mesmo ao som da própria rua, espantem a clientela e reduzam os lucros.

Planejamento é palavra de ordem, já que essa é uma tarefa que deve ser iniciada bem cedo, durante a elaboração do projeto arquitetônico. “Cuidar da acústica pode até tornar o projeto um pouco mais caro, mas é um diferencial de custo baixo, se comparado aos gastos que a pessoa terá ao trabalhar uma estrutura já pronta”, ressalta Marco Antônio Vecci, engenheiro mecânico, professor e coordenador do Laboratório de Acústica e Dinâmica de Estruturas (Ladae), da Escola de

Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Poucas vezes requisitado por clientes do ramo, como ele mesmo afirma, o engenheiro é referência no assunto e já executou projetos acústicos de grandes proporções, como os teatros do Minas Tênis Clube, do Cine Palladium e do Cine Brasil, todos em Belo Horizonte (MG). “Em muitos casos, somos procurados quando o problema já está instalado”, pontua. Para ele, “apagar o incêndio” sempre sai mais caro, podendo ampliar de cinco a seis vezes os custos de instalações já previstas em projeto. Os prejuízos, entretanto, dessa falta de planejamento vão além. “Às vezes, é necessário descaracterizar a arquitetura interior para adequar o ambiente acusticamente, o que não ocorre quando o projeto acústico é desenvolvido concomitantemente com o projeto arquitetônico.”

Para realizar um tratamento acústico satisfatório é preciso trabalhar em duas frentes distintas. Uma delas é o condicionamento, realizado para eliminar a reverberação do som no ambiente interno, tornando-o mais agradável e harmonioso. Já o isolamento sonoro é feito para evitar que o som de um ambiente interfira no outro ou mesmo chegue ao ambiente externo, incomodando a vizinhança – há também a atenuação de ruídos, mais utilizada para eliminar o som de equipamentos como sistemas de exaustão, ares condicionados, coifas e câmeras frias.

Atuação conjunta, bons resultados

A boa notícia é que é possível cuidar de todos esses aspectos em um mesmo projeto. É o caso do Na Mata Café BH, primeira franquia do já renomado bar paulistano, inaugurado em Belo Horizonte (MG), em 2012. Com uma área de 491,06 metros quadrados e capacidade para 350 pessoas, o imóvel escolhido para abrigar a casa, que fica no bairro de Lourdes, um dos mais badalados da capital mineira, foi totalmente reformulado e colocado sob medida para receber seus três ambientes –um lounge externo, um restaurante e um espaço para festas e eventos, ambos na parte interna.

“Quando se trabalha em uma casa onde a música é tão importante quanto a comida e a bebida, o tratamento acústico deve ser acompanhado de perto”, destaca o proprietário Fernando Júnior, que destinou 25% do valor total da construção no isolamento e conforto acústico do local. “O isolamento garante que, de maneira alguma, os vizinhos e demais pessoas que não estejam no ambiente sejam incomodadas. Além disso, a música, que aqui é mais alta do que na maioria dos restaurantes, oferece uma escuta tão confortável que acabou se tornando uma referência para os clientes. O que eles mais comentam sobre o Na Mata é a questão da música e a qualidade do som em todos os ambientes”, explica.

Responsável pelo projeto arquitetônico, a arquiteta Isabela Vecci lembra que, mais que uma escolha, o isolamento acústico é uma questão de sobrevivência, pois há legislações específicas que, se não forem respeitadas, levam até mesmo ao fechamento do estabelecimento. Atuando no mercado há 25 anos e proprietária de um escritório que leva seu nome, ela explica que todo o seu trabalho ocorreu em parceria com o engenheiro – o mesmo sobrenome não é coincidência, já que os dois são primos.

Juntos, eles discutiram aspectos como os melhores revestimentos, o tipo de porta mais apropriada, a vedação e o melhor forro para o teto. “É nessa hora que definimos os materiais adequados para atingir o resultado esperado”, explica. Como exemplo, ela cita o gesso perfurado utilizado na parte do restaurante e que apresenta tanto a qualidade estética como sonora. Todo o teto do Na Mata foi tratado acusticamente, bem como os vidros da entrada e as paredes da área de festas e eventos. Complementando a ambientação, a arquiteta revestiu com cimento algumas partes da casa e optou por mobiliário contemporâneo.

Isabella Vecci concorda com a opinião de Marco Antônio sobre as consequências de não pensar a questão acústica e as dificuldades (e altos custos) de se realizar uma intervenção dessa natureza em estruturas já estabelecidas. Para ela, o desconhecimento é a principal causa para a falta de investimento. “Por não conhecer um profissional especializado, muitas empresários acabam tentando soluções paliativas e que não corresponderão às expectativas.”

Barreiras para o som

Marco Antônio Vecci explica um dos principais materiais utilizados em projetos de isolamento sonoro são as alvenarias, consideradas bastante eficientes e de baixo custo (desde que projetadas adequadamente). Outra opção são as paredes de steel frame, que é um sistema industrializado, utilizado em vedações de fachadas e composto de estrutura de aço, placas cimentícias e mantas de lã, e paredes divisórias de dry wall, utilizadas na vedação entre interiores de ambientes e constituídas de mantas de lã entre painéis de gesso, o que permite construções e reformas rápidas, silenciosas, com pouca sujeira e sem desperdício.

As esquadrias e caixilhos (peças que recebem o vidro) das janelas também são importantes. “Muitas pessoas se enganam, achando que basta colocar um vido duplo para obter-se vedação acústica. Se os perfis e os caixilhos não forem projetados adequadamente, o isolamento sonoro fica muito prejudicado”, afirma. No mercado também é possível encontrar portas acústicas prontas e de matérias diversos, como vidro, madeira e aço e a escolha deve ser feita levando-se em consideração as especificidades de cada empreendimento.

SERVIÇO

Na Mata Café

Endereço: Rua Marília de Dirceu, 56, Lourdes – Belo Horizonte (MG)

Contato: (31) 3654-1733

Horário de funcionamento: de segunda a sexta das 19h às 2h, sábados das 12h às 4h e domingo das 12h às 21h (fechado as segundas)

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº 93 - Matéria na íntegra disponível na revista*