07/05/13 - Chefs resistem ao boicote da web

 

Dono de um pequeno bistrô no bairro de Higienópolis, em São Paulo, Milton Freitas passou a acompanhar diariamente os comentários do site Boicota SP - criado há quase um mês com a proposta de reunir, de forma colaborativa, indicações de estabelecimentos que praticam preços supostamente abusivos na capital paulista. Achou a iniciativa muito bem-vinda até que numa quarta-feira à noite, ao chegar em casa, ele viu o próprio restaurante Antonietta ser criticado por cobrar R$ 76 num prato de nhoque de abóbora com camarão.

Freitas pensou em ficar quieto para não levantar mais poeira, como têm feito a maioria dos donos de restaurantes citados no site, mas decidiu partir para o debate e, em resposta, propôs abrir seus custos aos clientes que tiverem dúvida. "Meu cardápio não é barato", admite o empresário, que toca o restaurante em paralelo com o trabalho numa empresa de telefonia. "Mas está de acordo com o que oferecemos: temos um chef internacional, trabalhamos com produtos importados e nosso fluxo é muito pequeno."

A discussão a que Freitas fez questão de aderir ganhou força com a criação do Boicota SP, lançado no dia 8 de abril por quatro publicitários. Três dias depois, duas jornalistas colocaram no ar o site SP Honesta, com a proposta de divulgar indicações de estabelecimentos que praticam preço justo. O primeiro já tem mais de 45 mil seguidores no Facebook. E o segundo, 9,2 mil.

Essas iniciativas surgem num momento em que há um estranhamento coletivo em relação aos preços praticados no Brasil - do tomate ao enxoval de bebê (que os brasileiros têm preferido fazer em Miami para pagar menos). Quando se trata de um serviço, como é o caso dos bares e restaurantes, é ainda mais difícil definir o que é ou não abusivo.

Para o professor de economia da USP e pesquisador da Fipe, Heron do Carmo, trata-se de uma clara situação de mercado. "O preço que os comerciantes estão cobrando é questão de oferta e demanda. A demanda está aquecida, por isso, os preços subiram", afirma.

O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Joaquim Saraiva de Almeida, admite que os preços cobrados nesses estabelecimentos estão mais altos neste ano do que no mesmo período do ano passado em cerca de 12%. Ele ressalta, no entanto, que os custos fixos subiram 15% no período, o que teria feito a margem de lucro dos restaurantes cair em 2013. Segundo ele, os vilões foram o preço dos alimentos e o reajuste de aluguéis, itens que representam as maiores despesas dos bares. "Nenhum restaurante quer aumentar o cardápio. Mas não teve como segurar", diz Almeida.

Para o consumidor, é difícil decifrar o que é repasse de custos e o que é uma margem abusiva de lucro. A avaliação, em muitos casos, acaba sendo subjetiva - o que tem gerado polêmica em torno da iniciativa do Boicota SP. "Ainda falta referência para identificar o que é preço abusivo. Por isso, queremos ter o máximo de informações para que o site seja um guia de consulta", diz Danilo Corci, um dos fundadores do Boicota SP. "As próprias pessoas vão julgar o que é justo."

Um bom parâmetro de avaliação, segundo ele, é confrontar valores de um mesmo produto em estabelecimentos diferentes. Também não é difícil perceber as discrepâncias em lugares onde os consumidores têm poucas alternativas, como nos aeroportos. Um dos pontos mais conflitantes está nos estabelecimentos de luxo, que alegam usar produtos de maior qualidade ou adotar um preparo mais requintado para justificar os cardápios mais caros. Há casos em que os próprios internautas saem em defesa dos restaurantes "boicotados" por considerarem as críticas injustas.

Impacto. Mas apesar do burburinho causado pelo Boicota SP nas redes sociais, a iniciativa ainda não chegou a impactar o movimento dos bares e restaurantes "denunciados". Mesmo com a percepção de que o brasileiro tem feito mais refeições fora de casa, a Abrasel afirma que o movimento vem caindo desde o ano passado e está 20% menor neste ano. "O motivo não é o boicote, mas um maior rigor na Lei Seca e o endividamento das famílias."

E talvez por isso, entre os proprietários ouvidos pelo Estado, poucos demonstraram disposição de reajustar o cardápio para baixo por conta do protesto na web. "As pessoas precisam entender que restaurante não é uma ONG", diz Renato Carioni, chef e sócio do restaurante Così em São Paulo. "Elas têm o direito de decidir se aquele lugar cabe ou não bolso delas."

Não se pode dizer, no entanto, que o impacto do Boicota SP está sendo totalmente ignorado. Embora ainda não tenha aparecido no site, o Grupo Egeu, dono de restaurantes como o Kaá e o Girarrosto, está se preparando para aderir no próximo mês a um programa de fidelização novo no mercado. "As pessoas poderão comer com desconto em restaurantes de alto nível gastronômico."

O sócio, Paulo Kress, não dá detalhes do projeto, mas diz que ele foi motivado por essas iniciativas. "Acho difícil que o boicote reduza, de fato, os preços", afirma Freitas, do Antonietta. "Mas ele já está cumprindo um papel importante que é o de abrir o debate."

Fonte: Estadão