Exemplos de empreendimento que propõem soluções para a cidade crescem em Salvador.


Quando eles chegaram ali era tudo escombro. Ramon Simões, 42, e Gabriela Dantas, 44, encararam como missão recuperar aquela viela do Rio Vermelho, há muito entregue a entulhos e à penumbra de uma iluminação vacilante. Primeiro, alugaram os canais de comunicação da prefeitura. Lâmpadas novas, por favor. Depois, trouxeram vaso de planta, demão de tinta, faxina. E, então, um pé de árvore – tangerina –, e uma horta, que trataram de chamar de horta urbana, quando pouquíssimos conheciam a prática, ainda menos o termo. O ano era 2010 e qualquer foto que nos mostre o retrovisor dessa história atesta o quanto esse pedaço de bairro é, hoje, outra coisa.

“Verde e vivo. Como quando uma rua reencontra a cidade”, diz Ramon. Ele, chef de cozinha, e ela, administradora, fundaram o Armazém do Reino para “devolver ao mundo o que utilizavam do mundo”, como diz Gabriela. Filosofia de desperdício zero. Ou sustentável, como tanta gente depois chamou. “Para o capitalismo, fazer o bem não é só uma escolha moral, mas uma questão de sobrevivência”, lança o casal, quase em uníssono, realçando a proposta.

Em sete anos, o Armazém ganhou novas hortas, posicionadas como um abre-alas para quem chega. É dali que Ramon extrai temperos e ervas para os pratos do dia. Não há cardápio. Durante a reserva, Gabriela ouve a demanda e assunta o perfil do cliente. E, então, uma lista de matérias-primas locais é mobilizada para a refeição. Os resíduos gerados viram adubos ou novas plantas. E o espaço, um sobradinho acanhado, decorado com materiais reaproveitados, lembra um laboratório que nos ensina como sobreviver num mundo sufocado pelo consumo e pelo desperdício.

“Nosso azeite é brasileiro e não trabalhamos com uísque, só com cachaça, que também é um produto próximo. Se privilegiamos um produto produzido por perto, evitamos gasto de transporte, energia e tempo”, diz Ramon, que, antes de abrir o negócio, tocava o Ateliê Reino Vegetal, cozinha-aula itinerante sobre especiarias de todo o mundo. “Passamos um período de obras públicas no Rio Vermelho e vários comércios fecharam. E o histórico de Salvador é, muitas vezes, o mesmo: um restaurante abre com uma nova proposta, muda o conceito para se adequar ao mercado, cai o movimento, fecha. Não dura três anos. O nosso restaurante se mantém de pé e com público fiel. Sinal de que não estamos sozinhos em nosso conceito”.

A ideia de que é preciso equilibrar a balança entre o que se retira do planeta e o que se devolve a ele ganha, a cada ano, nomenclaturas diferentes. Economia sustentável, pós-capitalismo, economia 2.0. Ou capitalismo consciente, o termo que une substantivos quase contraditórios. Em comum, os nomes tentam agrupar negócios que não se restringem apenas à geração de lucro, renda e empregos mas também a valores de bem-estar sociais.

As práticas não são novas, mas ganham estofo com a preocupação crescente com a degradação ambiental e com a conscientização de que a solução só será possível com uma mudança na forma como a própria economia está baseada. Uma mudança interna, que independe da implantação de um novo modelo econômico – que ainda não temos.

“A noção do lucro como único objetivo das empresas permanece muito forte. Mas diversas iniciativas começaram a aparecer, defendendo a ideia de que as empresas podem, e devem, contribuir para o bem-estar social sem detrimento do lucro”, diz André Carvalho, do Instituto de Economia da Ufba, que iniciou, há um ano, uma pesquisa sobre a percepção do consumidor ante o discurso sustentável das empresas. “Atitudes que se assemelham a caridade são postas em desconfiança, enquanto posturas que buscam interferir positivamente na cadeia de confecção dos produtos são exaltadas. Há um refinamento emergindo, por parte do público, sobre o conceito do que é ser economicamente consciente”.

Cidade

Há oito anos, os arquitetos Saul Kaminsky, 30, e Diego Viana Gomes, 31, pensam em como aprimorar a qualidade daquilo que entregam à sociedade. Fundadores do escritório Urban Recycle, que carrega a ideia de reciclagem já no nome, eles primeiro partiram de projetos que primavam pelo pouco gasto de energia e pela menor geração de resíduos. Até entenderam que essa era uma postura básica, e que tinham que entregar mais. “Ser sustentável é um ponto de partida, e as pessoas ainda falam como se fosse algo novo, um adicional. Da mesma forma, a busca pelo capitalismo consciente não passa por fazer uma doação a pessoas carentes, como muitos ainda acreditam. Isso é uma ação muito curta e que não modifica estruturalmente aquilo que está errado”, diz Saul. “A ideia é: como o setor de arquitetura pode pensar coisas viáveis economicamente e que mudem a vida das pessoas para melhor?”.

Num edifício na Rua Carlos Gomes, no Centro, Saul e Diego comandam uma equipe de 12 arquitetos. Juntos, dividem o tempo entre projetos comerciais (naturalmente adequados às premissas de sustentabilidade) e pesquisas em urbanismo. Essas últimas têm o objetivo de fornecer ao poder público ideias e subsídios para novas intervenções na cidade. Um dia de trabalho na Urban pouco se assemelha aos tradicionais escritórios de arquitetura (muito vidro, muito ar-condicionado, muito silêncio) e remete a uma startup de tecnologia em pleno nascedouro.

As paredes da sala em que os arquitetos da Urban atuam indicam por onde passeiam as pesquisas. Os rios de Salvador, sobretudo o Camurujipe e o Lucaia, recuperados, seriam corredores de transporte. Em fase de levantamento de dados (a ideia é que a pesquisa seja concluída em 2020), o estudo pretende apresentar à prefeitura e ao governo estadual a forma menos onerosa para reintegrar à cidade os rios hoje poluídos. Pelo trabalho, no ano passado, o escritório participou da 15ª Bienal de Arquitetura de Veneza.

Ao lado de papéis que pintam um futuro em que a cidade voltaria a habitar seus rios, estão projeções de estações de carros compartilhados no Centro – veículos que usariam motor elétrico ou à base de hidrogênio e que poderiam ser divididos. Uma outra pesquisa, essa concluída e em fase de captação de recursos junto a empresas, é a Smart Homes, cujo objetivo é vender, via internet, casas pré-fabricadas, moduladas (que podem ser ampliadas) e, sobretudo, baratas. Uma iniciativa que se distancia tanto das casas ultrapopulares como também das casas pré-fabricadas sofisticadas e caras já disponíveis no país. O meio-termo entre a doação, promovida por organizações não governamentais, e o simples comércio.

“O arquiteto tem uma responsabilidade social grande”, diz Saul. “Muita gente fala que o setor público não está interessado em discutir carros compartilhados ou recuperação de rios. Mas alguém já sentou com um gestor público e mostrou a ele a viabilidade, econômica e política, de fazer isso? Já apresentou um projeto embasado? A iniciativa privada precisa sair desse lugar histórico de menino mimado, que reclama, pouco propõe e está acomodado em cima de uma imensa parcela de desigualdade social”.

Os princípios da liderança empresarial sugiram com a Revolução Industrial e foram inspirados pelo mundo militar (pragmatismo, autoridade, metas). O capitalismo consciente (ou o nome que você queira dar) sugere uma liderança movida a propósito, quase missionária. Nos últimos dez anos, a mudança de princípios de muitos empreendedores vem se dando em ritmo célere para os padrões históricos, sobretudo após a crise financeira global, em 2008. Pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Cíntia Loureiro define aquela crise como um evento “substancial”. “O mercado como um todo, pela primeira vez, se permitiu pensar sobre a maneira como a riqueza é gerada”, diz ela. “Muitos setores multiplicaram lucros às custas de um abuso insustentável dos recursos naturais. Na falta de consciência, essa autodestruição não é percebida”. O tombo de 2008 foi tão intenso que o contrassenso emergiu.

Na FGV, no Rio de Janeiro, Cíntia finaliza um livro sobre “empresas humanizadas”, nas quais os princípios de responsabilidade social, além de benéficos para o planeta, são lucrativos para as próprias organizações. E o lucro, neste caso, vem de uma demanda da própria sociedade. “Dada a noção de consumo consciente que emerge entre as pessoas, a tendência é que os produtos admiráveis ou revolucionários do futuro próximo sejam aqueles capazes de exprimir nosso desejo por objetos duráveis, capazes de desafiar a lógica do descarte, e que sejam socialmente responsáveis”, diz Cíntia. “Não se trata de entregar um selo verde, mas de oferecer produtos que tenham em sua essência a própria revisão de um modelo de crescimento econômico consumista”.

A designer Luciana Galeão conhece bem a crescente demanda do público por produtos mais responsáveis. Estilista, proprietária da marca que leva seu nome desde 2009, ela começou comercializando suas roupas, feitas com tecidos descartados, em lojas multimarcas, até que, em 2011, sentiu que a demanda era suficiente para ela própria tocar o negócio sem “atravessadores”, como diz. Apenas com um pequeno ponto de venda no Pestana Convento do Carmo, hoje ela tem a maior parte de seu faturamento originado do contato direto com os clientes, que pedem roupas sob medida e exclusivas.

“É claro que o trabalho de criação, de estamparia, é importante. Mas se você me perguntar o que pesa mais quando as pessoas optam pelo meu trabalho – se a criação ou a responsabilidade embutida no produto –, eu não saberia dizer. Acredito que ambos são decisivos”, diz. “Estamos vivendo um rio de passagem, voltando a uma demanda do feito à mão, da pequena escala”.

Além do trabalho de reciclagem, utilizando materiais que virariam lixo, Luciana preocupa-se com a origem de matérias-primas básicas para a indústria da moda, como a malha e o algodão. Privilegia os produtos nacionais, como o algodão da Companhia Industrial Cataguases, em Minas Gerais, e das malhas Menegotti, em Santa Catarina, ambas conhecidas pelo baixo impacto ambiental. E tem se dedicado ao projeto Bahia Revoluções Criativas, promovido pelo Instituo Antônio Carlos Magalhães, de capacitação de tecelãs no centro de Salvador.

“A ideia é que as tecelãs da cidade comecem a produzir tecidos de qualidade, competitivos, que possam entrar no mercado nacional”, explica Luciana. “A competição com a indústria chinesa é cruel. Como é cruel, também, pensar em que condições o algodão e a malha que compramos da China ou da Índia é produzida. Se pudermos utilizar um produto que conhecemos a forma de produção e que gera renda para as famílias locais, todos ganham”.

Uma equação que empreendedores precisam enfrentar é o custo dos produtos socialmente responsáveis. Se, por um lado, a demanda por novas posturas aumenta, por outro, o alto valor de refeições ou de roupas economicamente corretas ainda parece um grande desafio. Mais do que isso: em um país como o Brasil, em que a desigualdade social é imensa e a possibilidade de comprar é uma ferramenta de ascensão social, como falar em consumo responsável?

“A ideia de um capitalismo consciente é quase um movimento de contracultura, que tenta resistir ao consumismo e ao lucro simples, mas que chega antes a quem tem maior acesso à educação e a quem já teve oportunidade de acesso a bens”, diz o ambientalista Guilherme Menezes, 34, proprietário da loja de roupas Salve Terra. “Chegamos a um ponto de degradação em que não dá para aguardar que todos os problemas básicos de sobrevivência sejam resolvidos. A necessidade de mudança já é urgente”.

Há dez anos, Guilherme era responsável pelo setor ambiental de uma empresa do ramo de petróleo. Cansou de ouvir dos colegas de trabalho que a área que ele comandava atrapalhava a empresa de ganhar dinheiro. Em 2011, deixou o emprego para fundar uma marca de camisas feitas com embalagens PET. Passou alguns anos operando por meio de um site até decidir montar a primeira loja física – hoje, são quatro.

Mesclando produtos feitos a partir do plástico e com algodão nacional, a Salve Terra promove oficinas em bairros populares. Foi através de uma delas, no bairro de Sussuarana, que Guilherme conheceu a família que, hoje, produz a maior parte das embalagens da Salve Terra. A marca compra o plástico de catadores, envia para a pequena fábrica no subúrbio de Salvador e recompra o material em forma de embalagens. “Se o mundo é complexo e está se modificando, o empreendedorismo precisa estar conectado a este mundo e ser capaz de encampar avanços e ajustes”, diz Guilherme. “O ato de empreender precisa andar, cada vez mais, junto ao ato de transformar”.

Respostas

Foi a busca por uma transformação no estilo de vida que fez Verônica Simões, 50, trocar o escritório de advocacia em que trabalhava por um forno e muitos quilos de argila. Criando uma xícara um tanto torta e depois um vaso meio desproporcional, ela diz ter encontrado sua profissão: ceramista. Entre 2007 e 2009, Verônica aprimorou sua técnica, mas uma coisa ainda a incomodava. O segmento que havia escolhido para labutar usava a lenha como a principal fonte de energia para a produção de telhas, tijolos e outros materiais. Um processo caríssimo ao meio ambiente. E, então, veio a segunda guinada, o ingresso de Verônica num curso de engenharia ambiental. O objetivo: conceber um projeto de redução de impacto no meio ambiente durante a fabricação da cerâmica. Adotado pelo Fundo Clima e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal, do governo federal, o projeto assinado por ela e por outros três engenheiros foi colocado em prática em 2014. Com as medidas adotadas, pequenas e médias indústrias ceramistas de Pernambuco, Bahia e Paraíba conseguiram reduzir em até 30% o consumo de lenha.

“Mas o mundo pede respostas rápidas”, diz Verônica, que comercializa seus vasos, pratos e cumbucas num ponto comercial no município de Uruçuca, no sul da Bahia. O próximo passo, ela diz, será substituir a lenha pela biomassa (matéria orgânica, de origem vegetal ou animal) para alimentar os fornos. Uma catequese em pequenas fábricas que ela já iniciou em abril deste ano. “A economia vive uma era de desequilíbrio, que se soma a crises de caráter ambiental, político e cultural. O estrago é amplo e o tempo é breve”, diz Verônica. “Existem instrumentos para acelerar a mudança necessária. A maior delas é cruzar lucro e propósito”.

Numa de suas viagens ao interior de Pernambuco, no ano passado, ela topou com um ceramista que, assustado com a conversa politizada da colega, perguntou se Verônica era comunista. Ao que ela respondeu, como quem responde a um descrente. “Comunista, não sei. Mas espero ser sobrevivente”.

Fonte: A Notícia