Em Recife, o tino comercial fez Severino Lucena mudar de vida; de auxiliar de serviços gerais virou sócio de um grupo de restaurantes



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Há 35 anos o melhor filé a parmegiana do planeta se encontra na praia de Boa Viagem, em Recife, mais precisamente nas unidades I e II do restaurante Ilha da Kosta. Pelo menos esta é a opinião de Severino Lucena, que lá já fez de tudo. Começou trabalhando como auxiliar de serviços gerais, foi copeiro, assistente de cozinha e garçom. Hoje, como sócio-proprietário, comanda os 250 funcionários da casa, inspecionando com propriedade cada um dos afazeres, já que possui mais de três décadas de experiência atrás do balcão.

Ufanismos à parte, a ascensão do garçom que se tornou proprietário foi rápida. Oriundo de Frei Miguelinho, uma cidade de 15 mil habitantes no agreste pernambucano, a 114 Km de Recife, Severino se mudou aos 14 anos para a capital em 1977 com o irmão José Inácio, de 16, em busca de melhores oportunidades. Eles são os rebentos mais velhos de Dona Josefa e Seu Inácio, que criaram ao todo nove filhos. Ambos começaram a trabalhar na Cantina Star como auxiliares de serviços gerais até virarem auxiliares de cozinha. Depois se separaram: Severino foi trabalhar no restaurante Ilha da Kosta e José, na casa D’Itália.

Aos 14 anos, Severino já mostrava proatividade. Solicitou ao então dono do Ilha da Kosta que pudesse trabalhar em um turno como assistente de cozinha, enquanto à noite vestia a gravata borboleta para servir aos clientes como garçom. A intenção, nas palavras dele, era “ganhar um pouquinho a mais”. Todas as alimentações do dia eram feitas nos locais de trabalho, o que rendeu a oportunidade dos irmãos economizarem. O dinheiro que entrava era depositado na Caixa Econômica Federal, as despesas eram mínimas. Em 1981, parentes de Frei Miguelim lhe emprestaram um montante que, juntamente com as economias do irmão e mais um sócio, foi o suficiente para que dessem uma entrada e adquirissem o restaurante.

Reabriram a casa com o mesmo nome. No início, sem capital de giro e sem carro, na hora das compras de insumos algum dos sócios ia de ônibus ao Mercado de São José e voltava de táxi. Só depois de um ano compraram um Chevette 1978, financiado. Solteiros, não gastavam com moradia. Dormiam e faziam as refeições no próprio restaurante para reinvestirem no negócio o pouco dinheiro que entrava. Motivos para desistirem não faltaram. “Éramos bastante amadores, mas tínhamos garra. Quando se juntam a sorte, a força de vontade e a perseverança, é possível levar um negócio adiante, nunca tirei essa ideia da minha cabeça”, diz Severino.

Em 1984 surgiu a oportunidade para abrir outro restaurante onde hoje funciona o Ilha II, também na mesma região. Nesta empreitada apenas os irmãos se tornaram sócios da nova casa. O restaurante foi repaginado com investimentos na climatização, cozinha e mobiliário. Compraram também a casa vizinha, inicialmente com a pretensão de oferecer estacionamento. Porém, ao final de 1998, os irmãos decidiram colocar um bar especializado em frutos do mar. A casa estourou e acabou criando uma oportunidade paralela de levantar o movimento da noite no Ilha da Kosta II. Plantaram ali, uma generosa mesa de frios para servir de acompanhamento para as bebidas, uma extensão do bar.

Localização estratégica

Imortalizada pela música “La Belle de Jour”, de Alceu Valença, os sete quilômetros de praia em Boa Viagem fazem parte de um dos pontos de maior boemia em Recife. A avenida à beira-mar que leva o nome do bairro é o ponto central da região, que mescla comércio e residências de média e alta classe. Uma distância de 900 metros é o que separa o Ilha da Kosta I, vizinho ao Parque dos Manguezais, ao Ilha II, que fica a um quarteirão da praia. O público nesta época, no início da trajetória do restaurante, já era formado por turistas e jovens em fim de noite, atraídos pelo horário dilatado de fechamento e pelas porções generosas dos pratos combinadas com um ambiente simples, porém confortável.

Logo os irmãos perceberam que os restaurantes da região fechavam de madrugada. Como dormiam por lá, decidiram se revezar e abrir até o último cliente. Tal estratégia rendeu fama ao restaurante e ajudou a alavancar os negócios. “Obviamente a localização dos restaurantes ajuda. Boa Viagem é um dos bairros mais ricos da cidade, mas não se pode deixar de ter aquele tinozinho comercial para fazer o negócio dar certo, não é mesmo?”, questiona.

Legado

Se antes os irmãos se consideravam amadores, hoje eles possuem uma equipe capacitada para auxiliá-los. Dois filhos do Severino, um formado em direito e o outro em administração, fazem parte da equipe administrativa e financeira que hoje comanda o chamado Grupo Ilha, que engloba as diversas segmentações de restaurantes que se originaram a partir do Ilha da Kosta. Há o Ilha Sushi, Ilha dos Navegantes, Ilha do Guaiamum, Ilha Camarões, Ilha de Crepe e o Ilha Burger.

Apesar de todo o aparato profissional, o empresário diz, saudosista, que seu melhor professor foi o tempo. “Muita coisa nós, donos de bares e restaurantes, só aprendemos com o passar dos anos, na vivência no atendimento aos clientes e parceiros - são experiências que nenhuma formação acadêmica pode te dar. Sinto uma satisfação pessoal, não o ego inflado, de ter feito o restaurante durar tanto tempo, enquanto infelizmente a maioria dos negócios de alimentação não duram entre cinco e dez anos”, diz.

Ainda sim, Severino afirma que “é preciso fazer o dever de casa”. Apesar de ter uma fiel equipe de colaboradores, já que há 30 anos o próprio empresário foi auxiliar do cozinheiro que até hoje comanda as panelas do Ilha, para não fechar as portas em 2016, foi preciso diminuir os custos. O resultado foi a demissão de 100 funcionários e a adequação do cardápio. “Custoso, porém necessário. Era isso ou não existir mais”. O famoso filé a parmegiana, para a felicidade da clientela, permaneceu intacto. É o tipo do prato com bastante fartura onde apesar de no cardápio constar para duas pessoas, o garçom avisa que serve muito mais gente. O segredo, segundo o dono, tal como os restaurantes do grupo, é a simplicidade. “É essa a chave para prosperar em qualquer situação”, ensina.


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