Artigo de Paulo Solmucci para o site Destrinchando


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Seis anos depois de Fernando Pessoa escrever o poema Tabacaria, o que ocorreu em 1928, abria-se em Belo Horizonte a sorveteria São Domingos. É impossível para alguém que conheça o poema não se lembrar dele quando vê uma criança calmamente lambuzando-se em um sorvete, sentada no banco em frente à São Domingos. “Come chocolates, pequena: Come chocolates! Olha que não há no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes”.


Este é o trecho do poema Tabacaria que muitos se recordam quando o assunto é Fernando Pessoa. O que querem dizer os versos? A leitura da gente é aquilo que nos toca. Simples assim. Cada um pode ver e sentir de um jeito. Quando o termômetro marca 20 graus, uns podem sentir calor excessivo; outros mais ou menos. E alguns até andam com uma jaqueta leve. Quando a São Domingos abriu as portas, em 1934, Fernando Pessoa estava com 46 anos de idade. Ele morreu no ano seguinte. Ou seja: o mundo do maior poeta da língua portuguesa era fisicamente o mesmo que o daquela Belo Horizonte, a nova capital mineira, inaugurada em 1897. As coisas inventadas pelos homens mudam, mas a natureza humana permanece a mesma. A literatura, as artes e a cultura em geral servem para domar os instintos naturais e despertar as sensibilidades potenciais, alargando o humanismo.

A criança suja, que Fernando Pessoa descreve comendo chocolate em frente a uma tabacaria de Lisboa do século XX, é a mesma criança suja que vejo sentada no banco de madeira em frente à de Belo Horizonte do século XXI. Pudéssemos nós perceber o universo com a mesma verdade daquela criança! Uma criança acorda as nossas sensibilidades. E é este o recado que deveria estar embutido no 12 de outubro, data em que a celebramos. É a data que também celebramos a descoberta da América e a santa padroeira do Brasil, este nosso país de milhões de crianças nascidas em lares muito pobres, e grande parte delas pertencentes a não-famílias, porque geradas de mães viciadas em crack ou entregues à sua própria sorte.


A Abrasel anualmente promove a Semana Criança em suas 50 bases espalhadas nas 27 unidades da Federação, tanto nas capitais como, também, no interior de vários estados. Os associados da Abrasel – sejam eles bares, lanchonetes ou restaurantes – recebem grupos de crianças vindos de escolas, orfanatos e abrigos públicos.

A organização desta Semana da Criança compreende a logística dos ônibus, por meio dos quais os meninos e a meninas são transportados aos estabelecimentos de nossos associados. Os pequenos tiram enorme proveito de uma bem articulada programação, na qual se incluem atividades recreativas e visitas guiadas a todas as partes da casa. Os garotos e as garotas, os guris e as gurias, e, enfim, todos os piás, podem assistir aos profissionais em ação, sejam eles os magníficos chefs, os ativos ajudantes de cozinha e os prestativos garçons. Pois bem. O 12 de outubro é, adicionalmente, o Dia da Leitura, o Dia da Visão, o Dia do Engenheiro Agrônomo e o Dia do Mar.


Tudo a ver. Sim, porque tudo a ler, a começar pelo poema Tabacaria, que acorda a nossa visão para as crianças, uma visão que se direciona ao fundo das nossas almas, despertando a solidariedade e a generosidade, que às vezes ficam um tanto adormecidas. O 12 de outubro nos leva ao alimento produzido com o acurado conhecimento e a dedicada orientação dos agrônomos. Alimentos estes que nutrem o nosso corpo e o nosso espírito, fazendo-nos explorar os sonhos brotados das inigualáveis maravilhas gustativas, como o chocolate e o sorvete ao tocar os lábios de uma criança. E o 12 de outubro é o Dia do Mar, o mar que trouxe para cá as caravelas, fazendo com que, subitamente, o outro lado do planeta passasse a ocupar uma vasta parcela do globo, habitada por centenas de nações indígenas, na qual subitamente se fincou o estandarte da Terra da Santa Cruz diante dos rostos assustados das crianças de olhos puxados.

As crianças sabem, sem saber expressar, de todas as verdades transcendentais. Que a gente seja capaz, no 12 de outubro, de perceber pelo menos um pouco do muito que elas sentem. Como não nos lembrarmos, a propósito, que no dia 9 de outubro de 1946 nasceu Fernando Brant, o maravilhoso poeta da música popular brasileira, o inseparável letrista de Milton Nascimento, ele que se elevou às esferas celestiais em 12 de junho de 2015? Fernando Brant “letrou” a melodia de Milton “Bola de meia, bola de gude”. Deveria ser esta a música do Dia das Crianças. A canção nos faz refletir sobre o despertar das nossas sensibilidades inatas. Só assim os homens se humanizam: - “Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão. Há um passado no meu presente, um bem quente lá no meu quintal, toda vez que a bruxa assombra o menino me dá a mão. Ele me fala de coisas bonitas que eu acredito, que não deixarão de existir: amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor. Pois não posso, não devo, não quero viver como toda essa gente insiste em viver. Eu não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal. Bola de meia, bola de gude, o solidário não quer solidão. Toda vez que a tristeza me alcança, o menino me dá a mão”.

Fonte: Destrinchando